artes & letras
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Segundo o dicionário, capoeira é o cesto grande ou qualquer compartimento, ordinariamente gradeado, onde se guardam e criam capões ou outras aves para a alimentação. O espaço feminino do gineceu é a capoeira do galo/padre. Um pequeno livro vermelho ao chão remete sem dúvida aos livros de Amaro e à tela anterior. O pombo é uma das aves da capoeira. A extraordinária galinha viva dependurada de cabeça para baixo constitui, ao mesmo tempo, uma belíssima natureza morta (ou still alive), um encontro com uma serigrafia de uma outra grande pintora portuguesa (Graça Morais) e sobretudo o símbolo de um espaço centrado sobre a procriação e a morte.

Dois elementos ligam-se à ideia de sacrifício/imolação: o pequeno cordeiro retoma a iconografia sobretudo hispânica do Agnus Dei e a minúscula boneca prefigura a criança que vai nascer para a morte. Desse ponto de vista, a boneca nega a redenção propiciada pelo cordeiro pascal. Não há pois expiação nem redenção. As mulheres vivem no ciclo que se repete da vida e da morte. Através alguns símbolos esparsos, esvaziados dos seus significados tradicionais, o esboço e o impulso narrativo de Paula Rego anunciam a série sobre o parto e o aborto clandestino.

Espaço feminino do trabalho quotidiano, de relação implícita com a criação e a alimentação, A Capoeira é sobretudo o espaço da espera, da prisão e da ausência de perspectiva. Do ventre redondo à boneca minúscula, a tela sugere a espera e a morte do filho.

Em última análise, dessas quatro mulheres tanto a grávida quanto as duas mais jovens (uma no primeiro plano, a outra ao fundo) poderiam ser projecções de Amélia em diferentes momentos/faces (Amélia jovem, Amélia que se suspeita grávida, Amélia grávida) Esta não é mais só um indivíduo, ela se torna o símbolo derisório de todas as raparigas que se deixam seduzir e são abandonadas: no texto de Eça, o tema é redundante. Através de Amélia, passa-se em revista e de forma resumida a queda de duas outras raparigas. Amélia lembra sempre do destino de Catarina, filha do organista (cf. 75, 77), e o da sua antiga colega Joaninha (cf. 144, 373). Apenas Dionísia escapa à sorte comum.

XIII. O Repouso durante a fuga para o Egipto, 1998, 170 x 150 cm.

O tempo de espera de Amélia À janela e das mulheres em A Capoeira findou. A morte da criança tantas vezes anunciada na série é enfim representada. O título remete ao tema bíblico da fuga para o Egipto para salvar o Menino Jesus da matança ordenada por Herodes (cf. O episódio dos Santos Inocentes).
O título nos leva a projectar sobre esse insólito triângulo familiar em que as personagens são representadas num espaço estranho e em escalas diferentes, a iconografia tradicional da família humana de Jesus. O bebé, Amélia, Amaro repetem, aqui e agora, Jesus, Maria, José. A dessacralização impera.
O espaço é fechado sem qualquer abertura. O espesso edredon azul, o tapete florido e a colcha de ramagens em dois tons de vermelho criam um espaço fisicamente abafado e quente. Não se vê nenhuma lembrança da natureza idílica da fuga para o Egipto. O olhar do espectador é encenado de cima para baixo, sua posição é a do Inquisidor.

A irrealidade é acentuada pela desproporção deliberada das figuras, todas vestidas à moda de hoje: Amélia de amarelo é bem menor do que Amaro ao seu lado, vestido de jeans, camisa e gravata, roupão de repouso em casa e o bebé, provavelmente uma rapariga, parece, por sua vez, grande demais em relação à mãe. Sua palidez de cera e suas roupas fazem com que o espectador o veja como uma menina morta nos braços do pai: seu aspecto inerte repete a estranha Barbie seminua encima do divã.

Pela terceira vez, Amaro olha sério diante de si. No romance de Eça, ele desejou vezes sem conta a morte do filho: assim ele estaria a salvo do escândalo e escaparia das despesas forçadas. Com um benefício aliás: haveria “um anjinho” a mais no céu. Amaro, segundo Eça, é responsável pela morte da criança, entregue pelo próprio padre/pai a uma tecedeira de anjos. Na tela de Paula Rego, o pai exibe, sem mediações nem intermediários, o seu infanticídio. A mãe sobrevive à perda, nova Virgem Mãe que vela uma criança morta.



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