artes & letras
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raçados a importância, o tom e os limites do texto de Rosengarten, passemos em revista os 14 quadros da série. Antes porém seria necessário descrever os meios técnicos postos em cena pela pintora.

3 A série pictórica de O Crime do Padre Amaro.

3.1 O uso do pastel.

A série de 14 telas – algumas são muito grandes medindo até 180 x 180 cm – é inteiramente pintada a pastel.
Consultando o dicionário encontramos:

Pastel (do ital. Pastello). Pequeno bastão feito de um material colorante aglomerado. Desenho, geralmente policromo, executado em pastel. Inv. Diz-se de cores, tons claros e suaves.

Inversão portanto do uso tradicional do pastel. Este, correntemente usado em pequenas superfícies – paisagens ou retratos íntimos (ver, por exemplo, o Auto-retrato com a pala sobre os olhos, de Chardin) – ganha força, dramaticidade, espalha-se em grandes telas em tons fortes e quentes. A primeira subversão em Paula Rego é a técnica.

A primeira obra de Paula Rego a pastel sobre tela data de 1994: é a primeira das Mulheres-cão e a seguir pinta Branca de neve brincando com o trofeu do pai em pastel sobre platex (1995). O que era experimentação transforma-se rapidamente em competência, depois brilhantismo e virtuosismo. Os meios técnicos não são pirotecnia mas servem à intenção narrativa porque tornam visível o rasto e a duração do gesto.

Na nossa série, Paula Rego usa pastel sobre papel montado sobre alumínio. O compromisso é novo: ela retoma o suporte tradicional (o papel) mas cobre superfícies cada vez mais extensas tornadas rígidas pela presença do alumínio, extraindo do pastel uma força robusta absolutamente invulgar.

Pintores franceses do século XVII e XVIII desenharam e pintaram a pastel. Chardin é um dos ápices dessa técnica. No entanto Paula Rego usa o pastel como Degas o fez com ainda maior fervor. Os efeitos que alcança são outros, mais fortes e dramáticos, do que a atmosfera difusa ou líquida das danseuses ou das baigneuses de Degas.

3.1 Leitura comparativa das telas.

A leitura comparativa poderia ser feita em duas direcções: dentro do universo de Paula Rego ou no confronto da série com a narrativa de Eça. Optamos, como já se sabe, pela segunda direcção.

Apresentemos sucessivamente cada tela, com a sua data de composição e as suas dimensões, seguida de breve análise. A ordem de apresentação tenta delinear determinados paradigmas e levar o leitor-espectador a captar certas relações e temas.

I. A Cela, 1997 (120 x 160 cm).

A Cela é, dentro da série, uma das duas telas em que Amaro aparece sozinho, sugerindo portanto o paradigma (= Amaro sozinho). O clima de O Poleiro, como veremos, será diferente, menos desesperado. É também, na série, a única tela com o formato de um rectângulo deitado.

Da obra, conhecem-se três estudos preliminares: no primeiro, Amaro representado apenas de busto, dorme desamparado e de boca aberta; no segundo, ele está deitado de costas; no terceiro, vemo-lo na postura definitiva sem a forma feminina debaixo da cama e sobretudo sem a perspectiva de alto para baixo em leve plongée. É esse ponto de vista que destaca a figura estranha sob a cama.



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