A significação simbólica dos sapatos
confirma-se: de pés descalços, Amélia perdeu a sua
força. Paula Rego faz uma inversão do espaço: a janela é muito
alta e o que vemos é aquilo que o antigo namorado não vê.
Amélia olha para o exterior, descalça, um pé apoiado
sobre uma cadeira. O que igualmente não se vê: o ventre em
estado adiantado de gravidez. O significado oculto – a gravidez – só existe
para quem leu Eça e conhece o romance O
Crime do Padre Amaro. Mas
a melancolia está lá. A monotonia da espera. O encarceramento.
E ainda a preocupação com o olhar exterior.
VIII. O Anjo, 1998, 180 x 130 cm.
Uma das telas à primeira vista mais simples é também
uma das mais opacas do ponto de vista da significação,
O Anjo. A opacidade impõe-se através do título,
dos atributos, da extraordinária sobressaia dourada: imagem, sumptuosa
como uma imagem barroca sobre um fundo azul forte, mais luminoso que
os fundos tenebristas de Zurbarán. Desse ponto de vista, O
Anjo relaciona-se com a tela, já analisada, No
deserto.
Amélia, de pé, monumental num espaço sem contornos
nem definição, os cabelos repuxados num coque severo, empunha
uma espada e uma esponja. Atributos religiosos, segundo Rosengarten,
instrumentos da Paixão de Cristo: a espada (e não a lança)
do centurião, a esponja de fel. Creio que essa leitura frisa o
contra-senso.
Anjo vingador, sim: Amélia, espada nua, vem destruir o mundo dos
valores patriarcais, vem punir. A esponja, a meu ver, remete a um objecto
presente em toda a série de desenhos e quadros sobre o aborto.
A exposição da Gulbenkian reunia as duas séries
e um trabalho mais aprofundado deveria considerá-las conjuntamente.
Seria um trabalho de intratextualidade em Paula Rego mas não foi
essa a nossa opção aqui. A esponja absorve e limpa o sangue
que escorre e pode manchar. Esta tela só pode ser lida no confronto
com a série sobre o aborto clandestino imposto às mulheres.
Amélia, vítima de um aborto não físico mas espiritual
(o filho lhe é retirado assim que nasce e é entregue pelo pai/padre
a uma tecedeira de anjos) ergue-se como uma figura ameaçadora. Ou como
uma nova virgem mãe, vingativa, inesperada.
Não há aqui ilustração da obra de Eça mas
diálogo da pintora com o romance. Sugere denúncia e contestação
da passividade feminina, da infelicidade de nascer mulher num mundo masculino,
revelação da força e da revolta femininas.
Num único passo da narrativa, Amaro chama Amélia de anjo. Trata-se
de uma carta de sedução do padre no primeiro terço do
romance:
Se eu visse que este mútuo afecto era obra do Tentador,
eu mesmo te diria: oh minha bem-amada filha, façamos o sacrifício
a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por nós!
Mas eu tenho interrogado a minha alma e vejo nela a brancura dos
lírios. E o teu amor também é puro como a tua
alma, que um dia se unirá à minha, entre os coros celestes,
na bem-aventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida
Ameliazinha, que até às vezes me parece que te podia
comer aos bocadinhos! Responde pois, e diz se não te parece
que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morenal, pela tarde. Pois
eu anseio por te exprimir todo o fogo que me abrasa, bem como falar-te
de coisas importantes, e sentir na minha mão a tua que eu
desejo que me guie pelo caminho do amor, até os êxtases
de uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a oferta
do coração do teu amante e pai espiritual. (O
Crime,
p. 167 – 168)
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O “anjo feiticeiro” virou anjo de verdade, isto é mensageiro
e traz a espada da punição e a esponja para limpar o sangue. |