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A presença de bonecas na série
atinge o seu ápice
em O Embaixador de Jesus. Anteriormente já havíamos
encontrado cinco exemplares: a boneca hirta - N. Sra. da Conceição
- debaixo da cama de Amaro em A Cela; a boneca miniatura no colo
da grávida
em A Capoeira; a boneca-bebé morto nos braços do
padre/pai reduplicada por uma Barbie seminua em O Repouso durante
a fuga para o Egipto;
a boneca – Virgem das Dores – fada má – madrinha
em Rapariga com gladíolos e cenas religiosas. Em O
Embaixador de Jesus, temos: a) no fundo do nicho criado pelos braços
do padre, uma pequena Barbie de braços e uma das pernas erguida
(a primeira conotação que se impõe é a de
uma mulher deitada à espera
de um homem); b) nas mãos da estranha rapariga de rosa (Totó),
uma boneca vestida de azul e amarelo (imagem que rebaixa ainda mais Amélia – N.
Sra. da Conceição) e c) uma pequena cabeça misteriosa
que surge entre as duas mulheres reflectidas no espelho (a imagem permanece
um enigma). Note-se ainda que as duas raparigas com saias amarelas por debaixo de batas brancas numa cama-espelho são provavelmente a mesma figura em dois momentos diferentes uma vez que o penteado muda. A tela de Paula Rego junta momentos, espaços, representados em escalas diferentes numa trama de significações que se justapõem e se complementam, que se interpenetram e se fundem. A cena da sacristia em Eça é esvaziada – em parte – do seu conteúdo escandaloso pela racionalização de Amaro: a capa da Virgem ainda não foi consagrada, é como vestir algo que chegou da modista. Paula Rego explora e exprime o caos que representa o amor de um padre de batina por uma rapariga vestida de Virgem Maria numa sacristia. O escândalo nasce nas vestes que revelam a função de cada um. Se o espelho reflecte o que tem a frente, o espectador ocupa o centro virtual dessa sarabanda de personagens: ele tem à sua frente o par de Amaro-Amélia, comentado pela mímica de Totó com sua boneca e às suas costas está a mesma mulher em dois momentos diferentes, de frente e de costas. Mas esse tipo de análise constitui ele também um esforço de racionalização: o caos não se descreve. Retomando o confronto entre a narrativa em Eça e em Paula Rego, nenhum crítico destacou ainda um pequeno excerto no texto queiroziano que poderia ser o germe inicial para a extraordinária proliferação de bonecas. No início do romance, Amaro, aos quinze anos, deixa a casa dos tios para entrar no seminário e olha as montras para examinar bonecas:
A boneca – Paula Rego pega uma simples anotação
de Eça (a nudez das bonecas numa vitrina à noite) que o
seu imaginário desenvolve – resume pois o mistério
do corpo feminino, outro, desejável e misterioso. |
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