artes & letras
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À guisa de conclusão.

Terminada a análise de cada uma das telas de Paula Rego no seu confronto com o texto de Eça, confirma-se que este funciona mais como um provocador de imagens e de metáforas visuais (na maioria das vezes distorcidas ou totalmente novas) do que como texto de base, A narrativa queiroziana descoberta muito cedo por Paula Rego sob a influência do pai, fornece à pintora temas como a quebra dos tabus, a relação homem e mulher, o amor impossível, a repressão sexual etc., que a tocam de muito perto. Apenas uma tela (À Janela) poderia ser considerada propriamente a ilustração de um episódio do romance, todas as demais desvelam novas combinações, inversões nas relações de força, fusões temporais e espaciais, distorções e desenvolvimentos inesperados, um novo imaginário e sobretudo um outro universo simbólico.

Seria interessante ver com pormenores tudo o que desaparece na transposição do texto para a tela mas tal escapa às dimensões desta análise. Muito resumidamente, podemos dizer que as grandes elipses são: por um lado, o desaparecimento de todo e qualquer traço de anticlericalismo (tão frequente em Eça), por outro lado, a concentração da trama narrativa em torno de três personagens (Amélia, Amaro e Dionísia) e enfim a eliminação de qualquer preocupação de documentação de uma determinada sociedade (maneiras de vestir, interiores provincianos etc.).

Ainda mais: a desconstrução e a reconstrução do texto de Eça feita na série pictórica não nos devem fazer esquecer outros jogos de significação como, por exemplo, a referência mais ou menos explícita a iconografias tradicionais e clássicas, religiosas ou não (a penitente no deserto, a fuga para o Egipto, o Agnus Dei, as Santas Mães, a Trindade humana, o Anjo vingador, as três Parcas, a velha cortesã) ou ainda o jogo subliminar e irónico com frases proverbiais (do tipo: o galo no seu poleiro, são favas contadas etc.). Todos esses jogos provocam o entrecruzar da série com outras narrativas, seguindo a tradição clássica da pintura com sentido moral, num discurso ao mesmo tempo denso e ambíguo, explosivo e simbólico.

PS.: uma pequena coda

António, o conhecido cartoonista português de O Expresso, homenageou Eça de Queiroz (1845 - 1900) no centenário da sua morte com uma caricatura "d’après P. Rego". António retoma a tela que já conhecemos, intitulada Mãe, e substitui, na figura do homem que veste uma saia de xadrez entre três mulheres, o rosto do Padre Amaro pelo perfil do escritor. Assim, acima da grande vieira central, metáfora do sexo feminino, o espectador descobre um duplo retracto do escritor (no plano médio e no espelho). Eça torna-se, desta forma, pai e mãe das suas personagens.

A homenagem do caricaturista só será descodificada se o espectador for capaz de fazer a triangulação necessária. E descobrir, por detrás da caricatura, a tela de Paula Rego sobre O Crime do Padre Amaro. Exemplo de que às vezes o cartoonista, virando as costas à comunicação de massa, dirige-se, como dizia Stendhal, aos happy few. Felizes por gostarem de pintura e de romance. Melhor: felizes por gostarem ainda de histórias e saberem que quem conta um conto aumenta um ponto•



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