e
certa forma, o corpus escolhido é quase perfeito
demais: uma série de 14 telas de uma pintora de renome internacional
tem o título
de um romance clássico de Eça de Queiroz. Não se
trata, no entanto, para Paula Rego, de pôr em imagens alguns episódios
marcantes de uma narrativa muito conhecida. A série exibida na
Gulbenkian não é uma ilustração, nem apenas
um confronto de imaginários mas sim um contraponto do que é a
característica
essencial e mais funda de toda a criação estética,
a dimensão simbólica. Paula Rego não tenta exprimir
o universo mental de Eça mas expressa-se a ela própria
a partir de um pré-texto que é a narrativa queiroziana.
O texto de Eça é o seu ponto de partida mas ela cria livremente
sem preocupar-se com qualquer fidelidade estreita à narrativa.
Trata-se profundamente de um encontro com o Outro, um diálogo
com esse Outro (Eça) e consigo mesma, criando obras em que a consciência
tenta conciliar o Mesmo e o Diverso, encenando o encontro e a diferença.
Busca-se aqui esboçar um contraponto entre o romance e as telas,
ou seja explorar uma recepção essencialmente criativa e
transformadora, que desconstrói e reconstrói o universo
queiroziano tornando-o outro, irrigado por um imaginário diferente
e prenhe de uma nova dimensão simbólica. O universo do
romance, cujos contornos principais pensávamos conhecer, é transformado,
distorcido, ganha novos significados, alguns – é verdade – já em
germe na narrativa de Eça, outros total e radicalmente diversos.
2. Objectivos.
Nossos principais objectivos aqui são:
a) definir, mesmo em termos bastante sumários, os meios
técnicos utilizados pela pintora na sua série,
b) mostrar até que ponto o texto de Eça funciona
como pré-texto para pôr em cena um outro imaginário
e uma nova dimensão simbólica.
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Para realizá-lo reli em dois
momentos diferentes a narrativa de Eça2: imediatamente depois
de visitar a exposição
pela primeira vez, que me fascinou, e antes de voltar uma vez mais a
rever as telas, anotando então cuidadosamente os encontros, diferenças
e correspondências entre texto e série.
Sobre a obra de Paula Rego, foram utilizados dois ensaios, um mais geral,
outro mais específico sobre a série a série em questão:
MC EWEN, John. Paula Rego. Tradução de Alberto de
Lacerda. Quetzal Editores, 1992.
ROSENGARTEN, Ruth. Paula Rego e O Crime do Padre Amaro.
Quetzal Editores, 1999.
Ruth Rosengarten faz uma introdução sobre o impulso narrativo
sempre presente na obra da pintora portuguesa e aquilo que denomina o
seu regresso à curiosidade ávida da infância. Paula
Rego descobriu Eça muito jovem graças ao pai e a série é,
de certa forma, uma homenagem à figura paterna e ao contador de
histórias enquanto homem.
2 Todas as citações, no corpo deste
trabalho, referem-se a O Crime do Padre Amaro. Fixação do
texto e notas de Helena Cidade Moura, de acordo com a edição
de 1880 revista pelo autor. Lisboa, Edição
Livros do Brasil, 1999. |