artes & letras
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A terceira mulher, apenas entrevista no espelho, sugere insensivelmente a terceira Parca, a mais pequena das três e a mais terrível.

A própria pintora, indagada por Ruth Rosengarten, sobre a figura de Amaro com saia de xadrez fala de uma analogia com as efígies medievais espanholas em que o Cristo veste saia, levando a uma leitura remota e subliminar de metáfora de sacrifício. Foi uma mulher – a marquesa, antiga patroa de sua mãe – que o destinou imperiosamente ao seminário. O seu testamento assim o determinava. Amaro também é uma vítima: no romance de Eça apenas o Dr. Gouveia o diz claramente. Paula Rego o sugere nestas duas telas.

Se olharmos a tela de nome aparentemente absurdo – Mãe – dois objectos aumentam-lhe a estranheza. Um, descentrado para a direita, é o barco à vela sobre a poltrona de veludo vermelho. Por detrás da poltrona, uma janela abre-se para o céu claro, símbolo de aventura, espaço, liberdade, sonho impossível. O segundo objecto, quase centralizado, entre as figuras de Amaro e da criada mulata, é a concha. Branca, leitosa, de bordos avermelhados, cheia de picos é a reificação do que, no olhar masculino, é o aspecto mais ameaçador da sexualidade feminina, o poder castrador da mãe, uma vagina dentata. No entanto, frente ao espelho, nos meio das duas personagens centrais, a concha sugere e denega essa leitura. A mãe não surge aqui como a figura tradicional da mulher que protege, amamenta e dá a vida, mas como disrupção hostil. Note-se ainda que o apelido de Amaro indica que ele está marcado pela vieira: Paula Rego expõe metaforicamente o que, no romance de Eça, fazia parte de uma estrutura discreta de significação.

O domínio da vieira (enquanto concha e sexo feminino), nem sequer sugerida por Eça, central na obra de Paula Rego, é confirmada pela própria artista em depoimento oral:

Quando coloquei a concha entre elas, a pintura ficou estilhaçada, tornou-se menos agradável […] Antes de pintar a concha, estavam mais eroticamente envolvidos, a rapariga e o homem; havia algo que os unia, uma espécie de ligação […] É a mãe! Uma mãe ciumenta, que chega e estraga tudo. (ibid., 36)

Agressiva, ciumenta e ameaçadora em A Mãe, a maternalidade era-nos apresentada como ausência dolorosa e doce em A Neta.

Comparando as nossas duas telas, vê-se que o trajo feminino varia: em A Mãe, as criadas ainda estão próximas às criadas de Eça, vestem-se como criadas (roupas severas, avental, gola branca sobre pano escuro) enquanto que em Entre as mulheres, os trajos escapam à ordem burguesa, são leves, claros, sensuais e aquelas que os vestem escapam ao seu papel social, à sua função doméstica e as figuras tornam-se simbólicas das diferentes faces da mulher (noiva maternal, tentadora sensual como a mulata baudelairiana, face escondida da Morte).

XI. Poleiro, 1997, 120 x 100.

Poleiro é a segunda tela em que Amaro é representado isolado no seu quarto. Pela sua solidão articula-se com A Cela e pelo seu título relaciona-se com A Capoeira. No universo feminino das galinhas, Amaro é o galo no seu poleiro. O último paradigma é claramente irónico.

Reencontramos a poltrona de veludo vermelho, elemento redundante nesta série e em outras de Paula Rego. Em dois estudos preparatórios, Amaro está a dormir, atitude que desaparece na tela definitiva. Em A Cela e neste quadro, a escolha se dá quando a pintora descobre o interesse de representar Amaro de olhos abertos. Bem desperto, vestido apenas com um roupão escuro, sentado à vontade, Amaro parece seguir um pensamento fixo. Em torno do padre estão três livros (dois fechados encima da mesa, um aberto entre seus pés nus).



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