artes & letras
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articulação das duas telas permite melhor apreender a inversão, inesperada: a jovem impressionável que vai morrer no romance queiroziano, tem o olhar duro e sonso daquela que sobrevive a tudo; a velha Celestina, que sobreviveu de facto, parece sentir remorsos da sua vida passada, a tal ponto doída com a perda de Amélia e do filho. Em resumo: as duas mulheres como que trocam de lugar na série de Paula Rego.


VI. A Neta, 1998, 160 x 120cm.

As mesmas figuras femininas, Amélia e Dionísia, opõem-se na tela A Neta. No primeiro plano, Dionísia com o mesmo rosto, o mesmo corte de cabelo, usando a mesma tonalidade de vermelho escuro e surdo mas com chinelas rasas de interior (estas chinelas dizem agora a sua fragilidade) faz o gesto de amamentar uma criança inexistente. Os braços vazios indiciam o bebé virtual, uma menina (= a neta). E a mão esquerda, por cima da roupa, faz o bico do seio para que a neta possa mamar. No fundo, à direita, na ponta da grande diagonal, com expressão vazia, Amélia aparece sentada.

O cenário é semelhante ao de A Cela: em Paula Rego, nesta série, o desespero é posto em cena perto de um canto vazio.

Uma entorse, melhor: várias entorses à narrativa de Eça se revelam: a criança morta é aqui do sexo feminino (em Eça, Amélia sonha com um menino e efectivamente tem um rapaz), um elo de parentesco mais forte que o de sangue existe agora entre a velha cortesã e a mãe solteira que sobreviveu. Uma genealogia feminina e simbólica é criada: avó – filha – neta, em que a criança é o ser da ausência. Mas Amélia também se transformou: o lenço à cabeça fá-la parecer uma moça do campo, como uma das lavradeirinhas que Dionísia fornece aos funcionários da cidade.

Ao lado das duas mães (em verdade, a tela de Paula Rego é uma paródia escondida e infeliz do tema religioso das Santas Mães ou de Sant’Ana Trina), duas sacas banais (bolsa de viagem, carrinho de compras) sugerem o útero infértil da mulher velha, o útero esvaziado da jovem que pariu. Os braços soltos ao colo da mãe dizem o seu cansaço, o seio estéril da avó só tem um simulacro de leite. As duas bolsas funcionam no eixo paradigmático da substituição. São metáforas visuais dos úteros vazios e dos seios inúteis. A menina desaparecida perdeu o seu espaço de protecção.

A falta do filho que, no romance de Eça, mata Amélia depois do parto é aqui sentida pela avó. O sentimento emigrou da jovem para a velha.

VII. À janela, 1997, 180 x 130 cm.

Esta é, em toda a série das 14 telas, aquela que aparentemente está mais próxima da narrativa queiroziana, da qual tende a ser uma ilustração.

No romance, Amélia refugiada numa quinta à espera do nascimento do filho, infeliz porque solitária e cheia de remorsos, põe-se sempre à janela para ver o antigo pretendente passar. Veste-se acuradamente da cintura para cima, da cintura para baixo está sempre à vontade, quase desleixada:

Todo o tempo que podia estar de pé, passava-o agora à janela, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia ver da estrada – enxovalhada das saias para baixo. Estava esperando João Eduardo, os morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com efeito, o gozo de os ver passar, naquele passo bem lançado de cavalos de preço, sobretudo o da égua baia de João Eduardo, que ele defronte da Ricaça fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna à Marialva, como lhe ensinara o Morgado. (O Crime, p. 457).



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