III. No deserto, 1998 ( 160
x 120 cm).
Esta
tela, na Gulbenkian, isolada numa parede, constituía
um dos fechos da mostra. Com as mesmas dimensões da anterior também
ostenta um título com conotações religiosas. O deserto é evidentemente
o espaço simbólico da penitência e do arrependimento. É o
espaço de todas as pecadoras arrependidas.
Representa uma mulher madura de perfil, voltada para a esquerda, de joelhos
e de mãos postas, com uma extraordinária saia de seda que se
abre em folhos. A forma piramidal se destaca sobre um belíssimo fundo
neutro, azul e rosa. A linha do horizonte, incerta (o que significa que a cena
não se passa num interior, mas no exterior), é a do nascer do
sol. A penitente é acompanhada por um atributo estranho, um porquinho
de barro de amealhar moedas.
A identificação da penitente é problemática: não é Dionísia
(jovem demais), não é Amélia (madura demais). A ambiguidade
nasce do seu excesso de significação, melhor: da abolição
das fronteiras entre a jovem e a velha, o luxo burguês e a economia infantil.
Seria uma projecção futura e feliz da penitente Amélia
sem a morte ou a evocação de Dionísia ainda jovem, que
escapou à desgraça que persegue as raparigas perdidas de Eça
e que representa a comédia da penitência sem deixar de exibir
a prosperidade alcançada nos jogos do amor (o vestido severo mas luxuoso,
o porquinho cheio de moedas).
A tela é, no fundo, a visão irónica de uma mulher ao mesmo
tempo arrependida e próspera. Uma nova versão da Madalena.
Essa projecção para o passado e para o futuro, essa fusão
entre a jovem e a velha pecadora é uma significação irónica
totalmente ausente da narrativa de Eça. É Paula Rego que desconstrói
e reconstrói a narrativa novecentista introduzindo na sua trama novos
fios narrativos, sugerindo parcerias, complementaridades, dialectizando até mesmo
Amaro, muito mais vítima do que celerado, invertendo a relação
de forças entre o masculino e o feminino.
IV. e V. Prostrada, 1998 (100 x 80 cm) e Dionísia, 1998 (100
x 80 cm).
 Um par opositivo impõe-se ao espectador: Prostrada e Dionísia.
Têm ambas o mesmo tipo de composição em telas de
dimensões absolutamente iguais. Amélia, de branco, está prostrada
voltada para a direita; Dionísia, para esquerda. Tudo nos leva
a compreender – a composição, sua data, as dimensões – que
são telas pensadas e executadas como complementares. Elas formam
um par e, como tal, reforçam a leitura da tela anterior da penitente
no deserto como projecção (futuro) e retrospecção
(passado) ao mesmo tempo de Dionísia e Amélia. Melhor:
como a fusão ideal e secretamente irónica da antiga cortesã e
da jovem pecadora, agora enriquecida e respeitável do ponto de
vista burguês. Essa complementaridade não existia em Eça: é uma
construção da pintora.
Mas no par de mulheres, as diferenças também se impõem,
imprevistas e portadoras de significação: Amélia,
apesar do título, parece uma figura de força: Dionísia,
apesar do seu nome, parece desesperada. Outro pormenor comum às
duas: as botinas pretas, de salto, fortes, masculinas, objectos fálicos
de uma feminilidade dominadora. Uma observação: o sapato
parece ser, na série, um dos símbolos do poder. Amaro sintomaticamente é representado
de pés nus na maioria das telas (A Cela,
Mãe, Poleiro,
Entre as mulheres), havendo apenas duas excepções que analisaremos
mais adiante (Repouso na fuga para o Egipto, O
Embaixador de Jesus).
Outra diferença: o lago de luz da toalha branca (de Prostrada)
e a cobertura cor de sangue pisado de Dionísia. Ainda outro elemento
de oposição: Amélia veste-se à moda do século
XIX; a velha como figura atemporal e portanto contemporânea. Consultando-se
toda a série, percebe-se que Amélia veste o seu vestido
de noiva de renda branca. É o mesmo vestido de O
Embaixador de Jesus, trajo ideal, dos seus sonhos eróticos; o mesmo ainda de
Entre as mulheres. |