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IX e X. Mãe,1997, 180
x 130 cm e Entre as mulheres,1997,170 x 130 cm.
Mãe compõe-se em linhas rectas e verticais (cf. personagens de pé), apenas a criada ajoelhada que abaixa a bainha à saia de xadrez, cria uma grande diagonal que põe em realce o objecto estranho sobre a console diante do espelho. Já Entre as mulheres ocupa a tela de forma diferente. As personagens são vistas de mais perto, a partir dos pés nus de Amaro deitado, ladeado por duas figuras femininas: uma que cose, outra que se reclina, lânguida, sobre a cabeceira da cama de repouso. Uma terceira mulher surge no espelho. Como o analisa muito bem Rosengarten, o homem vestido de mulher enfatiza paradoxalmente a diferença sexual (cf. op. cit., p. 48 – 52). O corpo masculino a representar a feminilidade torna-se aqui mais masculino e, ao mesmo tempo, o homem mascarado faz com que as mulheres nos pareçam estranhas. No romance de Eça há dois episódios em que um homem é vestido como mulher. O primeiro é bastante citado: trata-se do menino Amaro, em casa de sua madrinha, a marquesa, que é vestido de mulher pelas criadas. O segundo passa quase desapercebido: nas reuniões em casa da mãe de Amélia, um comparsa veste-se de mulher para divertir o grupo (cf. O Crime, p. 152). Em verdade, as nossas duas telas saem directamente, mas com transformações, do episódio longínquo da infância de Amaro. Em Entre as mulheres, Amaro adulto aparece deitado numa posição que lembra a de uma criança a fazer a sesta; o olhar é distante, sonolento, embaciado. Esta infantilização/feminização é reforçada pelo pormenor da toalha às riscas, colocada sob os seus quadris, dispositivo que sugere uma precaução contra manchas (criança que ainda faz xixi na cama, velho incontinente, mulher menstruada). Criança, velho ou mulher, todos menos um homem adulto, podem precisar de uma protecção sobre um divã de repouso. O objecto fala por si e do que fala é a desestabilização de todas as categorias (homem/mulher, adulto/criança). A tela representa um homem de corpo adulto que regressa ao mundo feminino da sua infância, um mundo prenhe de ambiguidade, no qual perdeu todo e qualquer poder. A confusão temporal só existe em Paula Rego pois os dois momentos (infância – vida adulta) estão claramente separados na narrativa de Eça, em que o comportamento de Amaro é explicado pelo seu passado, a narrativa fluindo segundo a ordem cronológica dos factos. Em Entre as mulheres, uma outra ambiguidade se dá: a mulata da direita é a mesma criada sem nome da outra tela (a que segura a mão de Amaro), a mulher no espelho quase não tem rosto mas a rapariga da esquerda é, sem dúvida nenhuma, Amélia, com seu vestido de noiva e que cose de olhos baixos. O pormenor dos pés descalços e calçados, já o sabemos ler no eixo sintagmático: Amaro descalço perdeu poder; Amélia, de botinas fortes sob o vestido fino, vela sobre aquele que adormece. Uma vaga conotação inquietante liga-se à figura daquela que cose e a sombra da tecedeira de anjos toca a figura de Amélia e aumenta-lhe o poder. |
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