nfim,
Rosengarten ignora totalmente as três figuras positivas
que Eça introduz no seu romance para contrabalançar a “noirceur” absoluta
da sua pintura dos padres: o abade Ferrão que, por pouco, não
resgata e salva Amélia (o crime do Padre Amaro é, ao mesmo
tempo, o de infanticídio do próprio filho e o de, uma vez
mais, desencaminhar e perder Amélia); o médico Dr. Gouveia
(este sim, o lídimo representante da voz da razão e que se
contrapõe à caridade do abade Ferrão) e, em menor
proporção, o morgado anticlerical que protege o antigo noivo
de Amélia. Sintomaticamente, o abade opõe-se, embora cordialmente,
ao mesmo tempo a um e a outro. Se há, no romance, um campo da razão
este pertence inequivocamente ao médico e ao morgado. O trágico – que
só aflora no final do romance – é que Amélia
não é salva nem pela caridade (abade Ferrão) nem pela
razão (Dr. Gouveia e o morgado). A caridade e a razão permanecem
impotentes.
Ainda, nesta lista, de simplificações por vezes claramente
abusivas, há a não-compreensão de toda a ironia final
de Eça. Rosengarten escreve: “num toque de ironia ainda mais
maldosa, Eça leva Amaro a informar-nos de que agora já só confessa
mulheres casadas (ou seja, menos ameaçadoras: mulheres cujo desejo
tem um objecto legítimo” (ibid., p. 21). Não se trata
de mulheres menos ameaçadoras nem de objecto legítimo ou
não do desejo: trata-se, para os padres, de evitar confusões.
A ironia vai muito mais longe do que pensa Rosengarten e é ainda
mais corrosiva. As novas confessadas são mulheres que, se ficarem
grávidas, já estão casadas e o filho que vier será sempre
filho do marido. Os sacerdotes escapam assim aos problemas conhecidos de
logística sobre o que fazer se nascer uma criança não
desejada. É a receita para prevaricar e colher a doçura do
adultério sem os perigos e os trabalhos em que se meteu Amaro na
sua inexperiência de jovem.
Na análise de Rosengarten há algo de muito bem observado:
a destruição da tragédia:
O
argumento é potencialmente dramático, mas a possibilidade
de o livro se transformar numa tragédia é constantemente
adiada: os personagens não têm nunca estatura suficiente
para sofrerem uma queda significativa do modelo de graça
(o modelo aristotélico da tragédia): a famosa ironia
corrosiva de Eça corrompe-os a todos. Barthos – estratégias
de esvaziamento repetidamente desenvolvidas – provoca o
riso do desconforto: à ideia de Rabelais de riso político
(que convida à desordem) acresce a ideia de riso simultaneamente
blasfemo e corruptor. (ibid., p. 10-11)
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E ainda sobre o facto de a artista adoptar aparentemente o estilo dos “clássicos”:
É, todavia um acto mimético irónico, logo
subversivo, pois aqui, e como sempre, a artista recusa as categorias
dadas e os limites estabelecidos. O limiar que ela aqui viola é a
linha que separa a comédia da tragédia, que separa
os homens das mulheres, e (nas réplicas humanas – inquietantes
as bonecas, as efígies), que separa a vida da morte, o orgânico
do inorgânico. Ao fazê-lo, não está a propor
o universo moral cristão, onde a morte da donzela ou da mulher
adúltera restaura a ordem legítima, patriarcal. (De
facto, depois da Queda original, o desejo feminino não contido
pelos grilhões do casamento é visto, dentro da cristandade,
como uma força corruptora, que põe em perigo a passagem
do poder de uma geração de homens para a próxima,
ou seja o sistema patriarcal.) Pelo contrário, o que a artista
faz é afirmar um universo moral no qual o desejo feminino
aparece fortalecido e legitimado. É esse o poder da subversão
de Paula Rego quando se apodera da Grande Tradição.
(ibid., p. 26)
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A afirmação sobre a destruição da tragédia é verdadeira
para quase todo o romance. Mas do ponto de vista do trio positivo de
personagens (Ferrão, Dr. Gouveia e Morgado), roçou-se a
tragédia porque nem a verdadeira fé, nem a ciência
laica, nem a generosidade desinteressada de um homem de bem salvam a
mãe e o filho. |