artes & letras
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O imaginário de Paula Rego transforma ao mesmo tempo a narrativa de Eça e o episódio bíblico. O triângulo evangélico se modificou: o pai/José que empreende a fuga para o Egipto afim de proteger o Filho é agora o padre/pai que entrega a filha à morte; a mãe em adoração perante o Salvador reza agora diante do cadáver de uma menina. Amaro, o mensageiro de Jesus (título irónico da última tela a ser analisada) é o mensageiro sem grandeza da Morte. Sem o carinho da avó simbólica, Dionísia, ele segura a criança inerte nas suas mãos.

XIV. O Embaixador de Jesus, 1997, 180 x 180 cm.

Enfim a tela maior e mais complexa de todo o conjunto de obras: O embaixador de Jesus ocupa o centro de uma tela enorme de formato quadrado. A máscara aqui é dramatizada como eixo principal de toda a narrativa, que se espessa e adensa incorporando elementos oníricos e comentários irónicos. Temos ao todo cinco figuras femininas em torno de Amaro numa verdadeira sarabanda. Amaro surge pela primeira e única vez de batina, na sua função de padre. Seu corpo perdeu toda e qualquer conotação de fragilidade ou infantilização.

Nessa altura do texto de Eça, os dois amantes que se encontravam clandestinamente em casa do sineiro, tio Esguelhas, são denunciados aos gritos “aos cães” pela filha doente deste, Totó.

Amélia refugia-se então na sacristia para rezar. O padre/amante acompanha-a e para distraí-la pede-lhe que vista a capa de cetim azul da Virgem que a Igreja adquirira para a imagem da Virgem. O que começa como um jogo de distracção acaba como desafio erótico para Amaro. Amélia veste o manto da Virgem. Amaro que, no seminário, levantava em imaginação as vestes da N. Sra. da Conceição, tem agora nos seus braços uma N. Sra. da Conceição viva e com quem acabou de fazer amor.

Esta é a cena central – blasfematória e ímpia, já em Eça – entre Amaro e Amélia coberta com o manto azul. Em Paula Rego a cena ganha uma certa contenção, surpreendente aliás, e a pintora acrescenta vários outros personagens, todas femininas, e diferentes objectos (cadeiras, poltrona rosada, reposteiro e um grande espelho-cama (?) que reflecte formas confusas e uma guirlanda verde). O espaço perde coerência lógica e a perspectiva como que enlouquece. A superfície está literalmente cheia, não se percebendo de imediato o elo entre as figuras nem a organização das cenas: cada figura – com excepção do par central identificado (Amaro – Amélia) permanece enclausurada, isolada e profundamente ambígua. O que reflecte o espelho não é uma sacristia. No meio das linhas que se cruzam, duas bonecas e ainda mais perturbadora uma pequena cabeça entrevista de frente no espelho, sugerem, de forma imperiosa, parto e maternidade como projecções lúdicas ou virtuais, fantasias ou comentários irónicos.

Tudo isso desfoca a figura da Virgem engalanada com seu manto azul e a cena erótica-religiosa de Eça entre o par de amantes perde a sua lisibilidade.

Também altamente problemática é a rapariga, de vestido cor-de-rosa, cara de adulta e pés nus de adulta, sobrancelhas depiladas, absorta a brincar com uma boneca. O espectador, também leitor de Eça, projecta sobre ela a figura de Totó, doente e odienta, inválida e cheia de ódio e de inveja por Amélia, ao mesmo tempo desleixada e preocupada com a sua aparência.



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