artes & letras
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A versão definitiva representa um quarto neutro e amplo, sumariamente mobiliado. A cama cria duas diagonais claras sobre um fundo castanho. Amaro com olhos abertos de obcecado está deitado, uma almofada a esconder-lhe o ventre. Debaixo da cama uma pequena efígie da Virgem Maria, vestida de azul e branco, de pés descalços e auréola à cabeça, deita-se hirta. De forma paradoxal, são as pernas e os braços estirados que lhe emprestam vida e quebram a impressão de imagem religiosa inanimada. A imagem, a meio caminho do objecto e do ser vivo, surpreende o espectador que hesita em atribuir-lhe uma significação.
É uma cena de solidão e desespero. Sem consolo possível, meio enroscado numa cama de campanha num quarto espartano, a cara apertada contra o colchão sem lençol, aquele homem seminu não olha o espectador, fita o vazio com olhos de obcecado. A sugestão de prisão (vejam-se as calças às riscas como as dos condenados), da depressão, do isolamento e do auto-erotismo tem mais a ver com a experiência da adolescência no seminário, do que com a frustração e o desejo do adulto insone na cama a ouvir os ruídos de Amélia no quarto de cima.

Em verdade, o espaço não é nem o do seminário nem o do quarto alugado em casa da S. Joaneira mas o espaço mental, cor da terra (castanho), da solidão. Cela de condenado e não cela de seminário.
Enfim, a efígie da Virgem debaixo do catre, como um fantasma a assombrar, representaria em Paula Rego a insistência da voz da consciência, totalmente ausente no Amaro de Eça. É sobretudo o signo indelével da presença feminina.

A cena nasce provavelmente da transformação de um episódio do romance:

Na sua cela havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, poisada sobre a esfera, com o olhar errante pela luz imortal, calcando aos pés a serpente. Amaro voltava-se para ela como para um refúgio, rezava-lhe a salve-rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura; amava-a; suspirava, despindo-se, olhava-a de revés lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da túnica azul da imagem e supor formas, redondezas, uma carne branca… Julgava então ver os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama de água benta; mas não se atrevia a revelar esses delírios, no confessionário, no domingo. (O Crime, p. 42)

A imagem da Conceição, concebida desde sempre para salvar a humanidade e esmagar a serpente do Mal, sofre uma metamorfose que a degrada: de mediadora passa a tentadora. Em Paula Rego, a litografia da parede tornou-se escultura, imagem hirta, de pés desnudos. Ela se transformou naquilo que Lévi-Strauss denomina uma categoria anómala, escapando ao universo das oposições binárias, portadora de excesso de significação, nem viva nem morta, uma assombração.

Veremos mais adiante como a imagem da Virgem retorna numa tela centrada sobre Amélia. Um pormenor secundário em Eça, que escapa à crítica inglesa por falta de vivência cultural, é perfeitamente captado e desenvolvido por Paula Rego: enquanto Amaro liga-se à Conceição, de branco e manto azul, Amélia dirige-se de preferência à sua madrinha, a Virgem das Dores, vestida de negro.



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