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Rosengarten traça ainda a evolução da obra
de Paula Rego, destacando as rupturas no seu percurso desde as primeiras
colagens (anos 60), o antropomorfismo, a caricatura e o humor corrosivo
assim como o desrespeito por um espaço homogéneo (anos 80)
e o trabalho de sapa realizado a partir do próprio cânone
ocidental (anos 90), sobretudo durante o período em que a artista
foi pintora visitante na National Gallery de Londres. Sobre a produção
do início dos anos 90, publiquei, como já referi, um texto
intitulado “Do sentido enigmático das imagens ou A pintura
de Paula Rego entre tradição e inovação".
Enfim a subversão iconográfica e a quebra das representações
dos papéis sexuais fazem parte de uma mimésis irónica
que se acentua no final dos anos 90 com a realização, em
pastel, da grande série sobre O Crime do Padre Amaro.
O ensaio de Rosengarten - que é sem dúvida um marco na leitura
da série – inspira-se no conceito de carnavalização
(Bakhtin) e nos estudos feministas sobre a subversão da ordem patriarcal
(Jo Anna Isaak, Julia Kristeva, Joan Rivière).
Um elemento parece muito bem observado, a utilização sempre
de uma narrativa exterior a partir da qual e muitas vezes contra a qual
são elaboradas as telas:
A artista sempre se serviu de uma narrativa exterior – fosse
ela a dos filmes de Walt Disney ou de Peter Pan, das cantilenas
infantis ou das histórias sabidas ou recordadas – como
ponto de partida para o seu trabalho. A narrativa externa
dá voz
e forma a um impulso mais secreto e privado: o que quer significar é articulado
como uma forma de reconhecimento. Um duplo reconhecimento,
pois envolve não apenas apreender a ressonância
(um efeito de eco prolongado) de uma dada narrativa, como
reconhecer também
a articulação desejada de uma emoção
ou estado durante o processo de realização
da obra. Nesse sentido, as suas pinturas não são
ilustrações
de narrativas pré-existentes: pelo contrário,
utilizam essas narrativas como pretextos, como ponto de partida
para imagens que se constróem também na relação
com as narrativas pessoais da artista (p. 10)
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O que nos parece, no entanto, por vezes muito contestável em
Rosengarten é a leitura proposta pela autora da obra de Eça
com imprecisões e falhas por vezes surpreendentes. A autora frequenta
sem dúvida mais assiduamente a obra de Paula Rego do que o romance
de Eça, o que leva a sua leitura a comparações por
vezes redutoras. Apontamos alguns exemplos do facto.
Em vários lugares, Rosengarten escreve “vemos Amaro num
quarto e Amélia noutro, ele encima, ela embaixo, esperando, consumindo-se
de desejo” (p. 14 e passim). Para quem conhece o romance e recorda
a intriga, a posição dos dois é justamente a inversa:
Amaro ouve, no seu quarto embaixo, o barulho dos saltos e o despir-se
de Amélia no piso superior. Mas isso é apenas uma imprecisão
e não provoca problemas de leitura.
Mais grave é a dicotomia que vê a autora “na luta
entre a razão (masculina) e a fé (feminina)” (ibid.,
p. 14). Penso que nenhum dos padres de Leiria merece sequer pertencer
ao campo da razão. São por demais medíocres afectiva
e intelectualmente. Este campo será ocupado por outras figuras,
que não são justamente de eclesiásticos.
Igualmente surpreendente é a sua não-compreensão,
parece-me, da importância de Dionísia, antiga meretriz,
ex-amante das principais autoridades civis e militares da cidade, tornada
na velhice uma verdadeira Celestina que se impõe ao Padre Amaro
abrindo-lhe os diferentes caminhos para resolver o problema do filho
não desejado. Como uma verdadeira tentadora, Dionísia aponta,
ao mesmo tempo, os caminhos da salvação e da morte da criança.
Tratar Dionísia como personagem menor e como “talvez a única
personagem do livro a sair moralmente ilesa” (ibid., p. 21) impede
que a autora possa apreender o claro protagonismo e a indisfarçável
ambiguidade que já estão em Eça e serão desenvolvidos
por Paula Rego na sua série. Nesta, as três personagens
fulcrais são Amélia, Amaro e Dionísia. A velha não é apenas
a “velha engomadeira” (ibid., p. 17). Seu nome o diz e a
autora parece esquecer que, numa narrativa, os nomes formam uma estrutura
discreta de significação, tanto mais importante quanto
mais escondida e sorrateira. Dionísia vem de Dionysos, o deus
dos excessos, dos bacanais, da desmedida. É ele que na tragédia
das Bacantes, faz com que as mulheres do reino de Proetos, enlouquecidas,
ataquem e devorem os próprios filhos. |