Amaro no romance de Eça não é o
homem dos livros nem do breviário, que não lê, mas
da frequência
a um texto erótico-religioso. Um em particular o interessa porque
o excita e servirá para seduzir Amélia:
Quando
descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado.
Punha-se então a ler os “Cânticos a Jesus”,
tradução do francês publicada pela Sociedade
das Escravas de Jesus. É uma obrazinha beata, escrita com
um lirismo equívoco, quase torpe – que dá à oração
a linguagem da luxúria: Jesus é invocado, reclamado
com as sofreguidões balbuciantes de uma concupiscência
alucinada: “Oh! Vem, amado do meu coração, corpo
adorável, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão
e desespero! Abrasa-me! Queima-me! Vem! Esmaga-me! Possui-me!” E
um amor divino, ora grotesco pela intenção, ora obsceno
pela materialidade, geme, ruge, declama assim em cem páginas
inflamadas onde as palavras gozo, delícia, delírio, êxtase,
voltam a cada momento, com uma persistência histérica.
E depois de monólogos frenéticos donde se exala um
bafo de cio místico, vêm então imbecilidades
de sacristia, notazinhas beatas resolvendo casos difíceis
de jejuns, e orações para as dores do parto! Um bispo
aprovou aquele livrinho bem impresso; as educandas lêem-no
no convento. É beato e excitante: tem as eloquências
do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se
em marroquim e dá-se às confessadas: é cantárida
canónica!
Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aqueles períodos
sonoros, túmidos de desejo, e no silêncio, por vezes,
sentia em cima ranger o leito de Amélia: o livro escorregava-lhe
das mãos,
encostava a cabeça às costas da poltrona, cerrava os olhos e
parecia vê-la em colete diante do toucador desfazendo as tranças;
ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria
dois seios muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão
brutal de a possuir.
Começara então a recomendar-lhe a leitura dos “Cânticos
a Jesus”
- Verá, é muito bonito, de muita devoção! – disse
ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto de costura.
Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras
até ao meio da face. Queixou-se de insónia, de palpitações.
E então, gostou dos “Cânticos”?
Muito. Orações lindas! – respondeu.
Durante todo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste – e
sem razão, às vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue. (O Crime,
p. 101 – 102)
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A citação, talvez um pouco longa, situa-nos no clima erótico-religioso
que explica, de certa forma, a representação do galo no
seu poleiro.
XII. A Capoeira, 1998, 150 x 150 cm.
A Capoeira constitui o complemento à tela anteriormente analisada.
Enquanto se pode encontrar um texto queiroziano como fonte de O
poleiro,
esta parece sair totalmente do imaginário de Paula Rego.
Apresenta dois pares femininos: o par do primeiro plano junta duas raparigas
fortes, uma grávida sentada na poltrona vermelha (já muito
conhecida) e a outra sentada sobre um banco bem baixo; o par do fundo é formado
por uma mulher mais velha talvez prestes a examinar a mais moça,
sentada na cama de pernas abertas. Bem ao fundo, um espelho reflecte
a figura mais velha.
Tudo no quadro sugere um ambiente de gineceu, de trabalho caseiro e de
partilha feminina. Todas as mulheres usam aventais brancos e as anáguas
aparecem por debaixo das saias levantadas. Há igualmente a sugestão
de uma narrativa ginecológica: o ventre da grávida, a minúscula
boneca no seu regaço, o provável exame da mais jovem.
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